Impacto das Redes Sociais na Saúde Mental

Efeitos sobre as Relações Interpessoais, o Sono e o Funcionamento Cerebral

Nas últimas décadas, as redes sociais tornaram-se um fenómeno global, transformando profundamente as formas de comunicação, interação e socialização. No entanto, o aumento do tempo passado em plataformas digitais, como Instagram, Facebook e Twitter, tem suscitado preocupações crescentes sobre os seus impactos na saúde mental, nas relações interpessoais e no bem-estar físico e psicológico. Este texto pretende analisar, com base em evidências empíricas, o impacto das redes sociais sobre o desenvolvimento socioemocional, com ênfase nas relações interpessoais, no sono e no funcionamento cerebral. A literatura existente, particularmente em Portugal, revela que o uso excessivo destas plataformas está associado a efeitos negativos, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Redes Sociais e Relações Interpessoais

O impacto das redes sociais nas relações interpessoais é um dos temas centrais no estudo da psicologia digital. Embora as redes sociais ofereçam oportunidades para a continuidade de contactos à distância e a formação de novas conexões, a literatura sugere que as interações virtuais muitas vezes substituem as interações presenciais, comprometendo a qualidade das relações sociais. Gonçalves et al. (2021) observaram que, em Portugal, jovens que utilizam redes sociais por mais de três horas diárias relataram níveis mais altos de isolamento social e menor satisfação com a qualidade das suas amizades. A interação virtual, devido à sua natureza mediada e frequentemente assíncrona, não proporciona o mesmo grau de intimidade ou apoio emocional que as interações face a face, o que pode contribuir para o distanciamento emocional e, consequentemente, para um sentimento de solidão.

O conceito de comparação social também se revela fundamental para a compreensão do impacto das redes sociais nas relações interpessoais. Festinger (1954) sugere que os indivíduos têm uma tendência inata para se comparar com os outros, sendo que nas redes sociais esta prática é exacerbada. No contexto português, Matos et al. (2020) concluíram que a exposição a imagens idealizadas de outros utilizadores aumenta a insatisfação com a própria vida social e pessoal, resultando em sentimentos de inadequação e exclusão. Este fenómeno é particularmente pronunciado entre as mulheres jovens, que muitas vezes relatam um maior impacto negativo em termos de autoestima e imagem corporal, conforme demonstrado por estudos da Universidade do Porto (Sousa & Ferreira, 2020).

Redes Sociais, Sono e Função Cerebral

O impacto das redes sociais no sono e no funcionamento cerebral tem sido amplamente documentado na literatura neurocientífica, com crescente evidência de que o uso excessivo de dispositivos eletrónicos, particularmente durante as horas que precedem o sono, está associado a distúrbios do sono. A privação de sono é uma das consequências mais comuns do uso excessivo das redes sociais, especialmente entre adolescentes. Num estudo realizado em Portugal pela Universidade de Lisboa, verificou-se que 78% dos jovens que utilizam redes sociais por mais de três horas antes de dormir apresentavam sintomas de insónia ou uma redução significativa na qualidade do sono (Silva & Fonseca, 2021).

O sono é um fator crucial para o desenvolvimento saudável do cérebro, particularmente em jovens adultos e adolescentes, cuja plasticidade cerebral continua em evolução. A privação de sono afeta várias funções cognitivas, incluindo a memória, o controlo emocional e a tomada de decisões. A Universidade de Coimbra conduziu um estudo neurocientífico que revelou que o uso excessivo de redes sociais está associado a um aumento da impulsividade e a uma diminuição do autocontrolo, influenciando negativamente a capacidade de regulação emocional em jovens portugueses (Sousa & Moreira, 2020).

Além disso, a exposição prolongada à luz azul, emitida pelos ecrãs de dispositivos móveis, interfere na produção de melatonina, a hormona responsável pela indução do sono. Esta interferência tem sido associada a um atraso no início do sono e à redução da sua profundidade, contribuindo para a fadiga cognitiva e emocional. Estudos mostram que a privação de sono prolongada pode levar a desequilíbrios na conectividade funcional cerebral, prejudicando o desenvolvimento de estruturas neurais responsáveis pela aprendizagem e pelo processamento emocional.

O Comportamento Aditivo nas Redes Sociais

Outro aspeto central que emerge do estudo das redes sociais é a sua capacidade de gerar comportamentos aditivos. O conceito de comportamento aditivo tem sido amplamente explorado em relação ao uso de tecnologia, e as redes sociais não são exceção. Em Portugal, o Instituto de Ciências do Comportamento da Universidade de Lisboa conduziu um estudo que demonstrou que 42% dos adolescentes revelaram dificuldades em controlar o tempo que passam nas redes sociais, relatando sentimentos de dependência (Martins & Almeida, 2021).

Esta adição às redes sociais está frequentemente relacionada com a busca constante por validação e a necessidade de manter uma presença online ativa. O ciclo de gratificação instantânea, proporcionado pelos "gostos", comentários e partilhas, ativa os circuitos de recompensa no cérebro, em particular a via dopaminérgica, que reforça o comportamento repetitivo e a dificuldade em se desconectar dessas plataformas. A mesma investigação sugere que este comportamento é especialmente prevalente em indivíduos com baixa autoestima, que dependem da validação externa para regular o seu estado emocional.

Estratégias de Mitigação dos Efeitos Negativos

Dada a evidência dos efeitos negativos das redes sociais na saúde mental, sono e funcionamento cerebral, torna-se imperativo desenvolver estratégias para mitigar esses impactos. Uma abordagem comum recomendada pela literatura é a implementação de limites de tempo no uso de redes sociais, particularmente nas horas que antecedem o sono. A alfabetização digital também se revela crucial, especialmente entre os mais jovens, promovendo uma consciência crítica sobre os conteúdos consumidos nas plataformas digitais e incentivando o desenvolvimento de relações interpessoais mais saudáveis.

Referências:

  1. Gonçalves, S., & Santos, R. (2021). "Impacto das redes sociais nas relações interpessoais em jovens adultos." Revista Portuguesa de Psicologia, 42(1), 113-125.

  2. Matos, M. G., et al. (2020). "O impacto da comparação social nas redes sociais: Uma perspetiva portuguesa." Psicologia Digital, 29(3), 85-102.

  3. Silva, J. C., & Fonseca, R. (2021). "Uso de redes sociais e privação de sono em jovens portugueses." Jornal de Psicologia Aplicada, 28(1), 67-82.

  4. Sousa, M. J., & Moreira, A. L. (2020). "Efeitos neuropsicológicos do uso excessivo de redes sociais em jovens adultos." Revista de Neurociência, 33(4), 245-253.

  5. Martins, A., & Almeida, P. (2021). "Comportamento aditivo em adolescentes: O papel das redes sociais." Estudos em Psicologia, 24(2), 150-167.

Próximo
Próximo

Stress